A história dos Novos Baianos


“Enquanto eu corria
Assim eu ia
Lhe chamar
Enquanto corria a barca
Lhe chamar
Enquanto corria a barca
Lhe chamar
Enquanto corria a barca
(…)
Preta, preta, pretinha
Preta, preta, pretinha”

Novos Baianos – Preta pretinha

Essa é uma das músicas mais conhecidas dos Novos Baianos e uma das mais ouvidas, além da clássica letra “Brasil, esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros que nós queremos sambar”.

Certamente, ao ouvir falar de Novos Baianos uma dessas músicas vem na sua cabeça e há muitos fatos interessantes na história desse grupo que simplesmente modificou o jeito de fazer a música popular brasileira.

Eles faziam referência a praticamente todos os ritmos existentes de sua época. Os Novos Baianos eram um grupo musical bastante inovador e formado em 1969 em Salvador. Foi precisamente em um espetáculo no Teatro Vila Velha onde eles se apresentaram a primeira vez.

O nome do grupo, no entanto, faz referência à sua participação no 5º Festival da Música Popular Brasileira da TV Record de 1969. Nessa ocasião, Moraes Moreira e Luiz Galvão apresentaram a canção “De vera”, mas, antes de irem ao palco, o coordenador do festival gritou para chamar “esses novos baianos”, fazendo alusão aos outros baianos que já eram conhecidos: Caetano, Gil e Tom Zé.

“Só me dá cansaço o passo o laço dos olhares côncavos
De palavras castas, mudas, tardes, mortas para viajem
De ver as coisas as coisas primas da primavera”

Novos Baianos – De Vera

O grupo dos Novos Baianos fazia questão de inovar com suas letras cheias de jogos linguísticos e de rimas difíceis, bem como experimentavam vários ritmos que até então não casavam muito bem. Assim, a música De Vera foi desclassificada do Festival.

Quem foram os Novos Baianos?

Os Novos Baianos tinham como integrantes principais: Luiz Galvão como letrista, Moraes Moreira como compositor, Paulinho Boca como vocalista e Baby Consuelo como vocalista e percussionista. Eles foram bastante influenciados pela contracultura, pela tropicália e eram quem compunha os Novos Baianos.

No início, esse quarteto era acompanhado da banda Leifs, mais tarde chamada de A Cor do Som. E vários integrantes participaram do grupo, dentre eles: Dadi Carvalho no baixo; Jorginho Gomes e José Roberto Martins Macedo como percussionista, baixista, ukelelê e bongô; Baixinho na bateria e bumbo e Bolacha no bongô e percussão.

É Ferro na Boneca

A produção incessante do grupo começa com o seu primeiro LP de 1970 que se chama É Ferro na Boneca.

“Não, não é uma estrada, é uma viagem
Tão, tão viva quanto a morte
Não tem sul nem norte
Nem passagem”

Ferro Na Boneca – Novos Baianos

Trata-se de um disco de Rock bastante psicodélico, lisérgico e com algumas pitadas de jovem guarda. Luiz Galvão fazia letras filosóficas e complexas que passaram despercebidas pela Ditadura Militar. As canções desse disco fazem parte da trilha sonora de filmes do diretor André Luiz Oliveira, como Meteorango Kid de 1969 e Caveira My Friend de 1970.

Como a música De Vera foi desclassificada do Festival, os Novos Baianos decidiram então morar juntos num apartamento do Rio de Janeiro, fazendo constantes ensaios e produzindo bastante, principalmente pela amizade de Luiz Galvão com João Gilberto, o que trouxe uma efervescência de ritmos às músicas do grupo.

O frevo, o baião, o choro, a Bossa Nova, o afoxé, a batucada, dentre vários outros ritmos passaram a fazer parte dos Novos Baianos.

Eles passaram colocar em seus arranjos, como bem fizeram os tropicalistas, a mistura da guitarra elétrica com a música brasileira, e intensificaram isso, dando os primeiros passos para aquilo que futuramente seria uma mistura de samba com rock.

“Baby Consuelo sim, por que não?
Baby Consuelo sim, por que não?
Veja, veja, veja
I’m sorry goodbye bye bye de baby
Baby Consuelo é o ponto, é o traço
Baby Consuelo é o ponto, é o traço”

Baby Consuelo – Os Novos Baianos

O disco Acabou Chorare é o álbum de 1972 e um marco da banda.

Acabou Chorare

Nessa época, o grupo já tinha saído do Rio de Janeiro, por causa das dívidas no apartamento, e passaram a viver juntos em um sítio em Jacarepaguá, onde as músicas ganharam arranjos diferenciados, mesclando músicas do interior baiano, cavaquinho, chocalho, pandeiro, agogô com guitarra e baixo elétricos.

“Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas
Passado, presente
Participo sendo o mistério do planeta”

Mistério do Planeta – Novos Baianos

Acabou Chorare é um disco ímpar e que defende o fim da tristeza da MPB, especialmente presentes nas músicas de protesto contra a Ditadura.

Esse é o caso das interpretações de Moraes Moreira no disco e que possuem um ritmo de alto astral.

As mais famosas canções desse maravilhoso disco são Brasil Pandeiro de Assis Valente; Tinindo Trincando bem como a clássica Preta Pretinha de Moraes Moreira e Luiz Galvão e Besta É Tu de Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Luiz Galvão.

Moraes Moreira

Um disco com um astral lá em cima se justificava pelo fato de o grupo pensar que somente a alegria é que de fato venceria os tempos difíceis do Regime Militar.

Esse álbum é um dos melhores álbuns da música popular brasileira, tanto é que, em 2007, foi eleito o maior álbum de MPB de todos os tempos pela revista Rolling Stone.

“O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato
Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá
Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar”

Brasil Pandeiro – Novos Baianos

Ainda no sítio de Jacarepaguá, em 1973, e com as partidas de futebol que eles faziam por recreação, o grupo fez o disco intitulado: Novos Baianos Futebol Clube.

Novos Baianos Futebol Clube

As mesmas inovações do disco anterior permaneceram e eles enfatizaram ainda mais a exaltação ao Brasil, principalmente em Sorrir e Cantar Como Bahia e também na música Só se Não For Brasileiro Nesta Hora de Moraes Moreira e Luiz Galvão.

É esse disco especificamente que faz com que os Novos Baianos cheguem ao carnaval em Salvador e inaugure o rockarnaval, inserindo um ritmo carnavalesco às suas canções. Isso chama ainda mais atenção internacional e nacional para o grupo.

“Desde lá, quando me furaram a primeira bola no meio da rua
Na minha terra, quer dizer, Juazeiro
Onde se dá ao mesmo tempo Ituaçú
O ho ho ho, a vizinha tem vidraças
Tem sim sinhô
O ho ho ho, avizinha tem vidraças
Tem sim sinhô”

Só se não for brasileiro nessa hora – Novos Baianos

A produção é intensa e, já em 1974, o grupo grava o disco Novos Baianos, conhecido como Alunte, onde a guitarra chama bastante atenção. Eles lançaram no mesmo ano Vamos pro Mundo sem Moraes Moreira, mas com muito choro, baião e samba. Em 1976, eles lançaram o Caia na Estrada e Perigas Ver, uma mistura de rock, samba e música brasileira, apresentando uma releitura de brasileirinho de Waldir Azevedo.

Em 1977, é a vez do disco Praga de Baiano, inspirado no trio elétrico do carnaval, apresentando a música Vassourinha de Matias da Rocha e Joana Batista Ramos e, a partir daí, o grupo começa a se diluir completamente.

Já não tinha mais Moraes Moreira e agora não contava mais com a participação de Pepeu Gomes, Paulinho Boca nem de Baby Consuelo que passaram a apostar, cada um, em sua carreira solo.

Antes do fim dos Novos Baianos, eles ainda lançaram o disco Farol da Barra em 1978, com a famosa Isto aqui o que é? De Ary Barroso e Lá vem a Baiana de Dorival Caymmi.

“Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos
Só entro no jogo porque
Estou mesmo depois
Depois de esgota
O tempo regulamentar”

Novos Baianos – A Menina Dança

Mas, em 1997, os Novos Baianos se reuniram para gravar um disco chamado Infinito Circular, com canções inéditas e seus grandes sucessos.

A história das produções dos Novos Baianos é intensa, experimental e bastante descontraída. Eles apostavam na desconstrução linguística de suas letras com repetição silábica. Eles também apresentaram a possibilidade de riqueza harmônica misturando e fazendo o começo do samba-rock, como em Biribinha nos States de Pepeu Gomes e Swing de Campo Grande de Moraes Moreira com Paulinho Boca e Luiz Galvão.

Além disso, eles faziam e ficaram famosos por fazerem canções para dançar, influenciando diretamente Marisa Monte e Arnaldo Antunes, por exemplo.

O grupo se apresentou ainda na Virada Cultural de São Paulo, em 2009, e, em 2015, eles anunciaram um possível retorno, mas sem a participação de Moraes Moreira.

Os Novos baianos e Erasmo Carlos fizeram alguns shows juntos nos últimos anos e Os Novos Baianos seguem com apresentações esporádicas atualmente pelo Brasil.

Novos baianos e Erasmo Carlo

Como viviam os novos baianos?

Um dos fatores que mais destacam o grupo e a sua atuação política contada nos livros de Luiz Galvão é a forma comunitária em que viviam na época da Ditadura Militar.

Os Novos Baianos eram hippies. E o modo de viver deles já era algo contra o próprio regime autoritário.

A relação entre os Novos baianos e a Ditadura estava relacionado diretamente a como esse grupo vivia. Os Novos Baianos viveram uma liberdade em comunidade completamente avessa ao regime.

Novos baianos

Eles viviam sempre juntos em sítios e compondo incessantemente ano após ano. Na entrada de suas moradas se estendia uma bandeira onde, em vez de Ordem e Progresso como bandeira nacional, estava escrito Cantinho do Vovô.

Foi principalmente no sítio de Jacarepaguá onde eles viviam em comunidade. Porém, tanto no antigo apartamento no Rio de Janeiro quanto no sítio, suas casas eram cabanas em vez de quartos.

Moraes Moreira, Luiz Galvão, Baby Consuleo, Paulinho Boca e a banda A Cor do Som viviam juntos com os empresários, as esposas, os filhos, os agregados e mais alguns personagens que cruzaram o caminho do grupo.

A ideia principal era a união das pessoas e a liberdade, sem normas nem restrições. Mas havia sim muita ordem na comunidade. Alguns administravam a cozinha e a lavanderia, outros cuidavam dos instrumentos e dos gastos, fazendo um fundo comunitário chamado mocó e, como disse Baby Consuelo, eles eram como crianças brincando de casinha.

Caetano, Gil e Tom Zé iam sempre visitar a comunidade e várias outras pessoas faziam o mesmo. Dentre eles, conta-se que um argentino passou a viver lá e também um índio boliviano. Além disso, um ex-presidiário que não tinha onde morar. A comunidade dos Novos Baianos recebeu também algumas visitas escolares. Sem contar as inúmeras visitas da polícia para checar ou deter o que aqueles hippies estavam aprontando.

Novos Baianos hippy

Imagine você que, numa comunidade hippie como essa, era comum ver as pessoas fazendo suas ocupações diárias na cozinha, preparando as refeições, tomando banho pelados e a criançada se divertindo, além de ensaios e muito futebol.

“Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho
Tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo”

Acabou Chorare – Novos Baianos

Eles chegaram até a organizar campeonatos onde o principal adversário dos Novos Baianos FC era o time de Evandro Mesquita e Vinícius Cantuária, chamado Ipanema.

Muitos dos Novos Baianos admitem que, para enfrentar os tempos difíceis da Ditadura Militar, a alegria e a união deles eram uma arma.

Opor-se ao regime autoritário, para eles, não era fazer música com ataques diretos, mas promover a alegria, o amor e a união, vividos em seu dia-a-dia.

Após vários anos no sítio, eles se mudaram para uma fazenda em São Paulo. No total, foram cerca de dez anos de convivência em comunidade até que se separaram definitivamente. Mas foi tempo suficiente para nascerem filhos, além de oito discos clássicos e imperdíveis para os amantes da música popular brasileira.

“João gira na bola
João gira a vitrola
João anda no verbo
Violando no infinito
la laia la laia”

Novos Baianos – Suor do Sol

Vale ressaltar que a figura de João Gilberto é como o pai dessa comunidade musical e os Novos Baianos muitas vezes se reconhecem como uma verdadeira continuidade do trabalho do pai da Bossa Nova.

“Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa”

Sampa – Caetano Veloso

A relação entre Caetano e os Novos Baianos não é só de visitas à comunidade e a admiração recíproca entre esses vários artistas. O grande gênio Chico Anysio pensou numa paródia do grupo em suas comédias e chamou o grupo de Baiano e os Novos Caetanos que era um trio humorístico composto por ele próprio, Chico Anysio, Arnaud Rodrigues e Renato Piau.

“Urubu tá com raiva do boi
E eu já sei que ele tem razão
É que o urubu tá querendo comer
Mais o boi não quer morrer
Não tem alimentação”

Urubu tá com raiva do boi – Baiano e Os Novos Caetanos

Eles traziam letras divertidas e clássicas da paródia como Urubu Tá Com Raiva do Boi, que é uma crítica bem humorada à situação econômica do país na época. O trio gravou vários discos com essa mesma temática.

Lista de álbuns dos Novos Baianos

Os Novos Baianos tiveram uma produção intensa ao longo de quase dez anos. Os álbuns de estúdio do grupo foram:

É Ferro na Boneca de 1970; Acabou Chorare de 1972; Novos Baianos F.C. de 1973; Novos Baianos de 1974; Vamos pro Mundo também de 1974; Caia na Estrada e Perigas Ver de 1976; Praga de Baiano de 1977; Farol da Barra de 1978.

E os álbuns ao vivo são o Infinito Circular de 1997 e Acabou Chorare – Novos Baianos Se Encontram de 2017.

Aí vai uma lista de músicas para ouvir dos Novos Baianos:

 

  • “E os novos baianos passeiam na tua garoa // E novos baianos te podem curtir numa boa” é uma letra de Caetano Veloso da música Sampa que evoca a relação com o grupo e o artista.
  • “Minha carne é de carnaval” – Swing de Campo Grande
  • “Minha velha é louca por mim” – Eu Sou o Caso Deles
  • Cosmos e Damião
  • Um Bilhete pra Didi
  • De Vera
  • “Vou sendo como posso” – Mistério do Planeta
  • Dê um Rolê
  • Volta que O Mundo Dá
  • Quando você chegar
  • “Mãe é mar” – Sorrir e cantar como Bahia
  • Com Qualquer Dois Mil Réis

  Para você acompanhar de perto as histórias desse grupo musical que revolucionou a música popular brasileira, podemos indicar alguns livros e documentários:

  • Anos 70 novos e baianos – É um livro que conta a história do grupo pelo próprio Luiz Galvão e sua perspectiva.
  • Novos Baianos – A história do grupo que mudou a MPB – É outro livro de Luiz Galvão que conta os bastidores desse símbolo de afirmação da liberdade e da democracia no Brasil, bem como as suas histórias de juventude.
  • Novos Baianos FC também é um nome de um documentário de Solano Ribeiro de 1973 que retrata o cotidiano de dez dias da comunidade em que eles viviam no Cantinho do Vovô.
  • Há também um documentário, intitulado Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano, onde são recontadas as histórias do grupo.

 


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