O samba brasileiro


Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Vinicius de Moraes e Toquinho – Samba da Benção

O samba brasileiro

Por que samba tem esse nome?

O samba é um ritmo genuinamente brasileiro, isso porque a sua história nos leva às fusões de ritmos e culturas que estão nas raízes do nosso Brasil. O samba surge do batuque dos escravos vindos da África, geralmente associados aos rituais religiosos que eles traziam de suas culturas.

Por que samba tem esse nome

 

A origem da palavra samba vem da África, mas existem muitas versões para essa história. Uma dessas versões nos conta que samba vem do quioco, onde significa brincar e se divertir. Outra diz que vem do banto “semba”, que significa dar umbigada e faz referência às danças de fertilidade provenientes de Angola. Ou mesmo em quimbundo, onde “sam” significa “dar”, e “ba” “receber”. O fato é que só em dizer ou ouvir essa palavra já escutamos certo ritmo de festa em nossos ouvidos.

Afinal, quando surgiu o samba? E onde nasceu?

O samba foi introduzido no Brasil e surgiu na Bahia em pleno século XVII, mas alguns marcam essa data como sendo em meados de 1860, com o que é chamado samba de roda de capoeira.

No início do século XX, a Praça Onze era onde se encontravam os negros cariocas e foi ali onde o batuque característico da África se misturou com a polca e o maxixe, devido às grandes concentrações de escravos vindos de outros locais do país, principalmente vindos da Bahia, onde o samba de roda já acontecia desde o século XVII.

Se você passasse na Praça Onze do Rio no começo do século XX, você iria se deparar com algo tipicamente baiano misturado com as novidades da nova capital: mães e pais de santos dos iorubás, muito vatapá, moqueca, além de várias cantorias e batucadas. Ou, quem sabe, você comeria alguns quitutes da Casa da Tia Ciata.

Tia Ciata

Era ali no quintal daquela Casa que o samba como conhecemos hoje surgiu. Você escutaria os primeiros ritmos misturados e o primeiro, com a permissão do trocadilho, choro do nascimento do samba. Seria embalado nesse ritmo e no cheiro de comida baiana que qualquer um que ali passasse veria o nascer de uma mistura de culturas e povos, dando um caráter coletivo aos versos cantados. Mais especificamente, no quintal da Casa, você ouviria um grupo cantando em alto e bom som:

O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar
Que na Carioca tem uma roleta para se jogar
O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar
Que na Carioca tem uma roleta para se jogar
Ai, ai, ai,
Deixa as mágoas para trás ó rapaz
Ai, ai, ai,
Fica triste se é capaz, e verás.
Ai, ai, ai,
Deixa as mágoas para trás ó rapaz
Ai, ai, ai,
Fica triste se é capaz, e verás.

Pelo Telefone – Donga

Por quem o samba foi criado?

O samba vai ganhando corpo e isso se expande em todos os subúrbios e morros do Rio, até que se consolida um dos dois primeiros sambas gravados da história desse gênero musical: “Batuque na Cozinha” e “Pelo Telefone”.

Batuque na cozinha
Sinhá não quer
Por causa do batuque
Eu queimei o pé

Batuque na Cozinha – João da Baiana

Nesses primeiros versos daquilo que hoje conhecemos como samba, vemos um Rio de Janeiro como capital do país e pronto para se tornar a capital do samba. É ali no Rio que o samba evoluiu e ganhou corpo como ritmo urbano e de valores sociais. Era através do samba que as populações negras enfrentavam as perseguições e as rejeições de uma sociedade branca que só via neles as violações de valores, rituais pagãos e satânicos.

Por quem o samba foi criado?

Ora, numa batucada como essa, e num ritmo dançante como esse, é claro que você já deve imaginar que o samba não foi e nem é uma composição de uma pessoa só. O samba foi feito por múltiplas vozes, batuques e rimas. O samba é sempre um coletivo.

No dia 27 de novembro de 1916 foi quando o samba foi criado, podemos dizer assim.

Dentre esses nomes que pela primeira vez registrou-se o samba temos João da Baiana (1887-1974) que gravou “Batuque na cozinha”, e também Donga (Joaquim Maria dos Santos) (1890-1974), que registrou no dia 27 de novembro de 1916 aquele que ficou conhecido como o primeiro samba que é o “Pelo telefone”.

Conta-se que esse samba era originalmente chamado de Roceiro e contava com Pinxinguinha, Caninha, Hilário Jovino Ferreira e Sinhô. Ele era algo entre o samba e o maxixe, mas fez logo sucesso e na história do samba está como a primeira música auto-intitulada samba.

Por que samba de gafieira?

Quando pensamos em samba, vários ritmos vêm em nossa cabeça, porque são vários os estilos de sambas existentes. O samba de gafieira é um deles. Ele é um estilo de dança de salão que veio do maxixe, da polca, do xote e do lundu e, por isso, tem uma série de passos programados do dançarino e sua parceira.

É uma dança a dois em que há também toda uma atitude do “malandro” em, de um lado, se mostrar para os outros e para ele mesmo, e, de outro, proteger a parceira da aproximação de qualquer outro homem.

Claro que essas atitudes não eram bem vistas pela sociedade brasileira, já que davam ênfase demais à sensualidade e à malandragem da classe pobre. A dança era mais considerada como uma dança de cabaré e de pessoas pobres. A gafieira era o local onde se realizavam esses bailes. Sempre um samba de gafieira é composto pensando nos passos da dança e isso inclui o Samba Choro, o Samba de Breque e o Samba Sincopado.

O samba breque é aquele em que há uma intervenção declamatória do intérprete como em “O Orvalho Vem Caindo” de Noel Rosa.

Noel Rosa

O samba sincopado é o samba do telecoteco, também tem uma parada repentina e enfatiza as melodias bem elaboradas com ritmos em ziguezague e muito humor, como em Geraldo Pereira – “Bolinha de Papel”. Ele certamente é uma das influências da Bossa Nova.

E o Samba Choro geralmente é uma formação rítmica instrumental com ou sem canto feito para a dança de salão da gafieira, em, por exemplo: “Aí, seu Pinguça”, de Pixinguinha.

Por que samba-enredo?

“Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado pela nossa liberdade
Este grande herói
Pra sempre há de ser lembrado”

G.R.E.S. Império Serrano (RJ) – Tiradentes

O samba-enredo é um samba de enredo, ou seja, contém um enredo específico em sua canção. É feito para os desfiles das escolas de samba e surgiu na década de 30, no Rio de Janeiro. Suas letras focam em fatos da natureza, na história do próprio samba, da vida de sambista, fatos históricos, personagens e heróis, temas sociais e culturais. É o samba enredo que representa cada escola de samba nos carnavais do Brasil. O primeiro samba enredo que se tem registro é o “Exaltação a Tiradentes” de Fernando Barbosa Jr e Mano Décio da Viola, Estanislau Silva e Penteado, em 1949.

Outro samba de enredo muito famoso é o da Mangueira: “O mundo encantado de Monteiro Lobato” de Eliana Pittman.

Vejam quanta riqueza exuberante
Na escritura emocionante
Com seus contos triunfais
Com seus personagens fascinantes
Nas histórias tão vibrantes
Da literatura infantil
Enriquecem o cenário do brasil
E assim…
E assim
Neste cenário de real valor
Eis… o mundo encantado
Que monteiro lobato criou

Eliana Pittman – O Mundo Encantado de Monteiro Lobato

E qual foi o samba enredo da mangueira em 2019?

“Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões
(…)
Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”

Mangueira – Samba-Enredo 2019 – Samba-Enredo

 

O samba enredo da mangueira em 2019 foi “História pra ninar gente grande”, que propõe retomar as narrativas da história do Brasil, dando ênfase aos problemas políticos, envolvendo a morte da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco e vários outros negros que são colocados de lado na história de lutas por direitos no Brasil.

 

Por que samba-canção?

“Chorei toda a noite, pensei
Nos beijos de amô que eu te dei
Yoyô, meu benzinho do meu coração
Me leva pra casa!
Me deixa mais não.”

Linda Flor (Ai, Ioiô) – Henrique Vogeler, Marques Porto e Luís Peixoto

O Samba-canção ficou bem conhecido ainda na década de 20, quando o samba se distanciava bem do maxixe e é um dos mais lentos sambas modernos urbanos. Sua temática é a solidão, o amor e a tal da dor-de-cotovelo.

“Linda Flor (Ai, Ioiô)”, do compositor Henrique Vogeler e dos letristas Marques Porto e Luís Peixoto, é considerado o marco inaugural desse estilo de samba e é interpretado algumas vezes por Elis Regina.

Esse é o clássico samba de vários nomes conhecidíssimos no Brasil como Lupicínio Rodrigues, Maysa, Jamelão, Elizeth Cardoso, Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho e Ataulfo Alves.

Depois de algumas décadas e por influências das canções vindas de fora, esse tipo de samba passou a ter um tom de Bolero Cubano e incorporou um tom pessimista. A chamada “fossa” passou a ser a temática de muitas dessas canções.

Há uma lista enorme de canções como essa e basta escutá-las para sentir esse tom pessimista:

  • Lupicínio Rodrigues em “Vingança”, “Nervos de Aço”, “Ela disse-me assim”.
  • Antonio Maria “Ninguém me ama”, “Se eu morresse amanhã de manhã”, “Quando tu passas por mim”.
  • “Barqueiro do São Francisco” de Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho.
  • “Aquelas Palavras” de Benny Wolkonoff e Luís Bittencourt.
  • “A volta do boêmio” de Adelino Moreira.
  • Do grande Tom Jobim temos “Incerteza”, “Faz uma semana” e “Pensando em vocꔑ.

 

O que é samba de roda? Voltando para a Bahia

Quando eu voltar na Bahia
Terei muito que contar
Ó padrinho não se zangue
Que eu nasci no samba
E não posso parar
Foram me chamar

Alguém me avisou – Caetano Veloso

O samba de roda é um dos mais antigos sambas. Ele surgiu no século XVII e seus primeiros registros são do século XIX. Hoje é um patrimônio cultural do Brasil. Ele está intimamente ligado à roda de Capoeira e ao culto dos orixás, envolvendo a viola, o pandeiro, o chocalho, o atabaque, o ganzá, a viola, o reco-reco, o agogô e, principalmente, o berimbau, além, é claro, das palmas daqueles que estão acompanhando a dança, onde cada um pode entrar no centro da roda e fazer sua apresentação, papel geralmente concedido às mulheres.

samba de roda

Os músicos responsáveis por popularizar o samba de roda foram Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso.

Mas onde é praticado samba de roda? Ele está em todo o estado da Bahia e está presente na região do Recôncavo Baiano, também em Pernambuco e, claro, no Rio de Janeiro.

Você sabia que o samba já foi para o espaço?! Sim ele esteve em marte em 1997 despertando o robô da missão Mars Pathfinder e o samba escolhido pela NASA em 1997 pela engenheira brasileira Jacqueline Lyra foi “Ô Coisinha tão bonitinha do Pai” de Almir Guineto, Jorge Aragão e Luiz Carlos.

Algumas diferenças

Não deixe o samba morrer
Não deixe o samba acabar
O morro foi feito de samba
De Samba, pra gente sambar

Alcione – Não deixe o Samba Morrer

Muitas pessoas fora do Brasil pensam no embate Samba VS Salsa, apostando que o samba é salsa ou vice-versa. Basta uma breve pesquisa e você verá que há artigos em várias línguas diferentes explicando os dois estilos musicais, o que certamente comprova a curiosidade dos estrangeiros para saber essa diferença.

Samba VS Salsa

Na verdade, há muitas semelhanças, porque ambos são uma mistura da Europa com a África. Mas o samba é do Brasil enquanto a Salsa é da República Dominicana, do Porto Rico e é encontrada nos EUA. A Salsa é originária do Caribe e é praticada sempre em pares ou grupos. Ela possui um desempenho artístico mais estruturado, enquanto o samba pode ser mais livre quanto à música e os passos e pode ser dançado só. Em suma, o tipo de samba que mais se aproximaria da salsa seria o samba de gafieira.

Outro embate é Samba VS Pagode: Por que samba e pagode?

O pagode é um subgênero do samba, e alguns críticos chamam o pagode de um subproduto da indústria cultural, por possuir um vínculo mais comercial e, digamos assim, menos “raiz” do que o samba de origem e marco da cultura brasileira.

O pagode na verdade é o filho do samba e ele incorpora outros ritmos dançantes e instrumentos eletrônicos dando certa ênfase à coreografia. O pagode era inicialmente o nome de festas animadas com comida, bebida e samba.

Samba VS Pagode

Foi nos anos 70 e 80, que o grupo Fundo de Quintal deu mais significado ao termo “pagode” e tomou o significado que conhecemos hoje. A partir daí inúmeros grupos surgiram, propondo o “pagode” que era algo novo em relação ao samba, que já era algo antigo para os olhos do marketing e da indústria fonográfica.

Na década de 90 o pagode foi uma verdadeira explosão. Ele se proliferou por todo o país. É claro, como todo ritmo popular, ele recebe severas críticas como música de classes menos favorecidas, pobres etc. Mas muitos de seus fãs não abrem mão da melodia e de suas letras românticas.

E já que estamos falando de críticos e certo pensamento intelectual, não tem como não nos lembrarmos da Bossa Nova.

Alguns perguntam: afinal, o samba foi influenciado pelo jazz?

A resposta para isso é Bossa Nova.

Samba VS Bossa Nova

E o embate Samba VS Bossa Nova pode ser explicado porque esse ritmo surgiu como uma nova forma de fazer samba na década de 50. Era algo mais da zona sul do Rio de Janeiro, da classe média carioca e foi uma reformulação do samba urbano carioca, com uma pitada de jazz, consolidando um dos movimentos mais importantes da Música Popular Brasileira.

Uma das músicas mais conhecidas do gênero, como se sabe, é “Garota de Ipanema” de 1962 de Vinícius de Moraes e Tom Jobim que ganhou popularidade mundo afora.

Músicas para ouvir

Além das músicas colocadas no texto, na história do samba e seus principais nomes, aí vão algumas músicas e partes de letras para escutar seja no churrasco, na feijoada, com acarajé ou quaisquer quitutes brasileiros e, por que não, sambando na rua:

  • “É samba que fala né” – Grupo Clareou + Grupo Revelação
  • “É samba que eles querem” – Orquestra Imperial
  • “É samba de preto velho” (Mas que nada de Jorge Ben Jor)
  • “É samba de roda e isso não é moda” (Dia de Samba da Turma do Pagode)
  • “Porque Samba é a tristeza que balança” – Samba da Bênção de Vinicius de Moraes
  • “Quem samba na beira do mar é sereia” – O Mar Serenou de Clara Nunes ou outras versões
  • “Quem samba fica, quem não samba vai embora” – Jamelão

Além de vários clássicos do grande Bezerra da Silva:

O Álbum Partido Alto Nota 10 e as músicas:

  • “Malandragem Dá um Tempo”,
  • “Sequestraram Minha Sogra”,
  • “Defunto Caguete”,
  • “Bicho Feroz”,
  • “Overdose de Cocada”,
  • “Malandro Não Vacila”,
  • “Meu Pirão Primeiro”,
  • “Lugar Macabro”,
  • “Piranha”,
  • “Pai Véio 171”
  • “Candidato Caô Caô”.


Deixe um comentário